quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Lembrança

Acabo de voltar de uma visita que me fez recordar muito de minha infância.
Ao chegar em casa hoje pela tarde minha mãe me diz que a Dona Jandira faleceu. Ela era uma senhora muito especial, a conheci quando tinha 5 anos de idade, ela sempre me respeitou, sendo criança, adolescente e jovem, uma senhora que é um exemplo de vida, tenho certeza que minha mãe aprendeu muito com ela, eu também aprendi muitas lições de vida com a Dona Jandira. Sua principal característica era sua sinceridade, sua forma direta de falar, sem escrúpulos e sem medo.
Quando recebi a notícia de sua morte me veio uma tristeza muito grande, pois eu gostava muito dela, e sabia que ela também gostava de mim. Não gosto de ir em velórios, mas fiz questão de levar minha mãe até o salão paroquial da igreja para dar a última despedida à Dona Jandira.
A pouco fomos, eu e minha mãe, ao salão paroquial, o corpo ainda não havia chego, fomos então até à casa da Dona Jandira para obter informações. Lá chegando encontramos algumas vizinhas, minha mãe conversou com elas. No fim da conversa a filha da Dona Bárbara Felícita convidou minha mãe para visitar a Dona Bárbara. A Dona Bárbara sofreu um derrame há uns 3 ou 4 anos e não fala mais, não responde, não anda, mas tem expressões. Ela é avó do meu melhor amigo de infância, o Ricardo.
Eu e minha mãe fomos então ver a Dona Bárbara Felícita, eu ainda não tinha ido visitá-la depois do derrame que ela sofreu, acho que nem minha mãe tinha a visto. Ao chegar no quarto de Dona Bárbara minha mãe logo foi cumprimentá-la, apertou sua mão e conversou com ela. Eu, antes mesmo de entrar na casa já fui observando tudo, quando criança eu e o Ricardo brincamos muito lá. A casa não tinha mudado muito, até os 'dorme-dorme' permaneciam no jardim.
Depois que minha mãe cumprimentou a Dona Bárbara eu a estendi a mão, ela olhou profundamente nos meus olhos, provavelmente estava tentando me reconhecer, afinal, eu era uma criança quando ela tinha me visto pela última vez, não tinha barba e nem cabelo comprido. Ela apertou com força minha mão, fez uma expressão como se quisesse sorrir.
Pouco depois minha mãe saiu do quarto, me deixou só lá, sentado, olhando pra Dona Bárbara Felícita.
Fiquei observando o quarto, lembrei de quando eu e o Ricardo brincávamos de carrinho lá, de quando pulávamos em cima do colchão. Vi no espelho do guarda roupas uma foto que me deixou intrigado. Parecia o Falecido filho de Dona Bárbara, o João. O homem que me apresentou ao Ricardo, seu sobrinho. João faleceu quando eu tinha 7 anos de idade, até hoje eu o considero o adulto que foi o meu melhor amigo. Na foto ele segurava um copo de uísque, tinha na mão esquerda um anel de doutor, era exatamente a imagem que eu tinha dele na memória. Me aproximei da foto, observei-a de perto, relembrei minha infância, o quanto eu gostava do João, comecei a chorar. Eu não choro por quase nada nesse mundo.
Voltei para o lado de Dona Bárbara, ela olhava pra mim agora com olhar de tristeza. Talvez tristeza por eu estar triste, talvez por sentir que sua amiga, vizinha de muro de tantos anos, Dona Jandira estava partindo, talvez por lembrar de seu filho falecido, talvez por tudo isso ou talvez por nada. Ela me olhava com um olhar muito profundo, eu, encarando-a, sentia mais vontade de chorar.
Minha mãe voltou ao quarto, ficou perguntando se a Dona Bárbara teria me reconhecido, comentou o quanto eu e o Ricardo aprontávamos naquela casa. Nesse momento Dona Bárbara estende a mão pra mim, ao segurar a mão dela ela aperta com firmeza minha mão e novamente me olha profundamente nos olhos. Dessa vez seu olhar parecia um olhar de reconhecimento, ela deve ter me reconhecido, eu vi felicidade em sua expressão, vi também saudade, provavelmente saudade do Ricardo, do tempo em que eu e ele brincávamos e dávamos vida àquela casa. Bom, eu lembrei desse tempo, não consegui segurar o choro. Me despedi da Dona Bárbara Felícita e levei minha mãe até o salão paroquial para aguardar a chegada do corpo de Dona Jandira. Depois disso voltei pra casa, dirigindo, chorando, relembrando com profunda tristeza meus bons tempos de criança.

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